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Uma crônica sobre rituais de sábado, home office e os limites da convivência.
Era sábado de manhã. O dia amanheceu com um sol tímido. Ela estava animada pois se encontrariam após uma semana longa de trabalho e chuvosa. O frio ainda presente a fazia rever a possibilidade de um vestido. "Talvez se colocar uma meia grossa funcione" - pensou.
Tomou seu café de costume: uma fruta, uma xícara de café, uma fatia de pão de forma, dessa vez com um ovo frito e uma fatia de queijo derretido por cima. Estava ousando!
- 13:30h na estação - selaram o horário do início da "aventura". Iam em mais uma tour gastronômica, para ela uma novidade aquele restaurante, para ele um quê de nostalgia. O plano original era um festival asiático, mas havia sido adiado por conta dos eventos da cidade, e um cinema. Este permaneceu, mas tiveram que adaptar a primeira parte.
Era cedo, havia tempo de sobra. Banho tomado, cabelo feito, até vestida estava. Desistiu do vestido, escolheu uma calça comprida. Mas trocou duas vezes. "Essa não fez a combinação que imaginei", dizia se olhando no espelho e já indo pegar a calça coringa que tinha (quentinha e confortável).
Olhou para as mãos, havia semanas que não conseguia pintar as unhas. O trabalho e estudo e cuidar da casa e academia e o climatério tinham pedido atenção demais naqueles dias que tudo que queria era descansar. Então ali havia uma janelinha de oportunidade de um autocuidado. Desde nova fazia suas próprias unhas, talvez influenciada por ver a mãe cuidar das delas. "É misturinha", sempre sua mãe reforçava a cor que ela deveria ir na farmácia comprar.
Cores separadas. "Dessa vez vou usar um brilho diferente!". Pois sempre tem que ter um brilho, pois se não for pra brilhar nem saía de casa.
Algodão, acetona, palitinho, lixa de unha, esmaltes, óleo secante. Tudo posicionado na mesa. Preferiu a mesa da varanda, pois havia mais claridade e poderia ir olhando a vista entre uma pincelada e outra. "Vou colocar uma musiquinha pra acompanhar". Pegou a playlist que tinha no computador, uma que havia a acompanhado durante um bom tempo enquanto se preparava para uma prova de corrida. Como era bom ouvir música sem nenhuma propaganda!Mal tinha começado o mp3 tocar e escuta o interfone gritando da cozinha. Um arrepio correu sua espinha! Mesmo após esses anos, mesmo a pessoa ter sumido no mundo, toda vez que o interfone toca inesperadamente ela tem essa sensação. Era como se a ameaça continuasse. Procurou pensar que era o porteiro avisando pra economizar água, como tinha sido na semana passada. Mesmo assim, atendeu desconfiada.
- Vamos instalar um ar condicionado então vai fazer um pouco de barulho - era a vizinha avisando da obra.
- Ah! É isso?! Tudo bem! - ela respondeu aliviada.
Voltou para seu "nail care" feliz, continuou a música. Primeiro uma camada de base, para nivelar e tratar as unhas. "Nossa! Como só com isso já dá um tchan!" - pensava com o palitinho na boca se preparando para colocar a camada de esmalte. Havia escolhido um vinho bem fechado, quase preto.
Quando foi dar a primeira pincelada que tudo começou. O susto foi tão grande que quase pintou os dedos. Se sentiu aquele personagem no Pica-Pau que quando ouve o sino tocar se treme todo. A vizinha avisou da instalação mas não imaginava que pra isso iriam derrubar a parede com uma britadeira, tamanho era o barulho. Já era impossível ouvir qualquer música, nem conseguia ouvir seus próprios pensamentos! "Mas tinha que instalar o aparelho na parede que divide o apartamento? Não podia instalar na outra?", refletia, quando um pensamento conseguia escapar no breve silêncio entre um zummmmmmm e outro.
Bem, não tinha jeito. Foi para o quarto e fechou a porta. Mesmo assim o barulho era muito alto. Manteve o foco nas unhas, desistiu da música. "Daqui a pouco já vou sair" - repetia como um mantra...
******
Segunda-feira. Mais um início de semana. O final de semana fora ótimo! Saudades prontas para serem recarregadas. O sol continua de férias e o frio presente. Café tomado, leitura feita. Aliás o livro que o clube do livro tinha escolhido daquela vez era um tema sensível, mas ela estava empenhada em terminar - estava quase lá. Aquele confere na agenda do dia do trabalho. "É, hoje está cheio de reunião. Uma típica segunda-feira."
Reunião de planejamento às 10h, conferia tudo o que precisava. 09:40h. De repente, não mais que de repente, tudo começa de novo. Desta vez o inesperado foi tão grande que ela quase caiu da cadeira. "Como assim?! A obra não era no sábado?" Faltavam menos de 20 minutos para a reunião.
Com o coração ainda na boca, interfonou para o apartamento ao lado. Dessa vez quem atendeu foi o rapaz, que é quem de fato mora ali.
- Er, bom dia! Aqui é a vizinha gostaria de saber até que horas irá o barulho pois trabalho de home office e tenho uma reunião agora a manhã toda.
- Não tenho como saber, disseram que a previsão é de concluir até o meio-dia.
- Mas ninguém me avisou nada que teria uma obra hoje. No sábado tiveram a empatia de me avisar.
- Eu vi com o porteiro o horário que é permitido fazer obra, estou dentro desse horário.
- É. Mas hoje muita gente trabalha de home office, você devia ter me avisado pois assim eu me preparava. Agora tenho uma reunião de manhã toda que começa daqui a pouco e o barulho é ensurdecedor.
- Eles não conseguiram terminar o serviço no sábado, preciso que concluam o serviço. E estou dentro do horário permitido. - O vizinho repetia.
- Não estou questionando o horário, estou questionando não ter sido comunicada dessa obra no horário comercial. É uma questão de civilidade. Moramos em um condomínio, há outras pessoas morando aqui e que podem ser afetadas por sua obra. Você devia ter avisado no sábado quando a obra não foi concluída que ela continuaria hoje.
- Eu entendo. Mas eu vi com o porteiro o horário que é permitido fazer obra, estou dentro desse horário. - Continuava repetindo.
- Não entende! Pois se entendesse teria me comunicado...
Enfim, ela viu que era impossível de mostrar para àquele ser que, apesar de estar dentro do horário, ele não morava sozinho naquele prédio e que devia sim comunicar seus vizinhos que teria uma obra que poderia incomodá-los. Ele certamente foi trabalhar na casa do pai enquanto a obra era efetuada, enquanto ela teve que ficar abraçada com aquele som estridente e ensurdecedor, pois não lhe fora dado a oportunidade de se preparar e escolher como passar por aquilo.
Trancou-se no quarto, com porta e janelas fechadas para conseguir abafar o máximo do barulho. A sorte que o seu fone de 20 reais do camelô da esquina anulava bem o ruído e os outros participantes não foram obrigados a compartilhar aquele martírio.
A obra durou a manhã toda e parte da tarde. Ela até agora não sabe como não colocaram a parede abaixo, pois realmente parecia que utilizavam uma britadeira para furar a parede. Estava esperando um furo aparecer vindo do outro lado a qualquer momento.
No final do dia ele ficou com o ar condicionado split instalado, ela com uma dor de cabeça que não passou nem com remédio. Exausta, sem forças para mais nada, jantou e foi dormir. No dia seguinte tinha mais uma maratona de atividades no trabalho.
Pica-pau: Morcegos no campanário
Location:
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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